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Construindo memórias afetivas nas crianças


19 de maio de 2021

Por Katia Gisele Costa

Quando eu era criança, toda vez que chovia, meu pai sentava em frente à porta entreaberta e ficava observando os pingos barulhentos e espaçados que desciam da telha ondulada que cobria nossa casa. Ficava ali por um tempo observando e pensando na vida. Hoje quando chove eu faço o mesmo. Tenho um fascínio por chuva porque acho que ela nos provoca a refletir.

Enquanto mãe fico pensando: o que será que eu faço recorrentemente que ficará na memória afetiva das minhas filhas? Nossas lembranças nos movem porque, melhor ou pior, são elas que nos transformam nas pessoas que somos, e as experiências que vivemos nos ajudam a construir conhecimento, elaborar conceitos e moldar nossa personalidade.

Tudo que uma criança vive, seja no âmbito familiar, escolar ou social faz parte da sua bagagem de vida e por consequência contribui com a formação humana. Já é sabido, com base nas pesquisas em neurociência, que quanto mais estímulos uma criança recebe, mais sinapses ela faz por meio das conexões nervosas. Sendo assim, uma criança mais estimulada tem facilidade para se relacionar, para aprender e para regular seu próprio comportamento, inclusive com maior autonomia. É na primeira infância que construímos a memória afetiva por meio do sistema límbico, que é o responsável pelas emoções e ações que nos despertam sensações agradáveis. Por isso, enquanto adultos, pais e professores devem prezar pelos momentos de convivência com as crianças, convivência essa que tanto tem faltado durante a pandemia.

Família e escola devem se esforçar para andarem alinhadas para que, numa relação de reciprocidade, as crianças cresçam não só em estatura, mas também amadureçam e construam conhecimentos significativos. Ter as crianças como “hóspedes” em casa durante a pandemia fez com que muitos pais revissem seus conceitos sobre desenvolvimento infantil, função da escola e papel do professor. Todos nós aprendemos com isso pois pudemos perceber o valor social e humano que a escola tem na vida das crianças além do valor acadêmico e cognitivo.

Na escola a criança convive com regras desde muito pequena e consegue perceber a importância delas no convívio social. Além disso, elas brincam, perdem seus brinquedos na areia, derrubam o amigo sem querer, pedem desculpas, dão gargalhadas, choram e aprendem a pedir ajuda. O ambiente escolar vai muito além de atividades motoras e cognitivas, ele estimula o tempo todo aprendizagens e com isso o cérebro faz conexões que se ampliam na medida em que a criança cresce e entra em contato com novas dificuldades e oportunidades. O convívio familiar e escolar deve ser como uma aliança, sem começo ou fim, sendo parte do mesmo anel.

Ouvimos depoimentos de adultos que se emocionam ao lembrar das experiências vividas na escola, das lições (de vida) que aprenderam com seus professores, da sensação nostálgica de ouvir o “sinal” da escola, e estas são formas de cada um contar sobre os pequenos detalhes que fazem parte das pessoas que são.

Por isso, você que é pai e mãe, não deixe que a televisão ou os jogos eletrônicos construam memórias com seus filhos. Faça com que eles se lembrem de você pela vida toda por conta das coisas que fizeram juntos. Mexam na terra, vão à praia, ensinem seus filhos a andar de bicicleta, brinquem na grama, soltem pipa, vão para a cozinha juntos, brinquem na cama, no

parque, no escuro. Observem a chuva com seus filhos. A infância, as memórias e as relações interpessoais são indispensáveis na formação de um adulto seguro, capaz de administrar sua própria vida e vencer seus obstáculos com sucesso.

Katia Gisele Costa é Pedagoga pela Universidade Estadual de Ponta Grossa e Mestre em Educação pela Universidade do Minho (Portugal). É Coordenadora Pedagógica – Educação Infantil no Colégio Pontagrossense SEPAM, de Ponta Grossa-PR.

Artigo publicado na edição de Maio/2021 da Revista Saúde.

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